Somos Todos Aylan

Leo de Brito*

Desde que me tornei pai, nada me comove mais do que o sofrimento de uma criança.  A imagem do corpo do menino curdo Aylan Kurdi, de 3 anos, estendido em uma praia na Turquia após morrer afogado chocou o mundo e chamou a atenção de todos para a verdadeira tragédia humana dos refugiados de guerra.

O caminho natural da vida deveria ser de que um pai viesse a ser sepultado pelos filhos e não o contrário. Nesse sentido, o sentimento do pai, Abdullah Kurdi, ao enterrar os dois filhos e a esposa traduz um pouco esse sentimento: – Não quero mais nada neste mundo. Tudo com o que sonhava se foi. Quero enterrar meus filhos e me sentar ao lado deles até morrer.

Assim como Aylan, mais de 2300 refugiados morreram afogados este ano no Mediterrâneo fugindo das agruras da guerra civil síria que já deixou 250 mil mortos. Mais da metade dos cidadãos sírios tiveram que deixar suas casas. Mas o que verdadeiramente choca é que 12 mil crianças como Aylan já foram vítimas desta guerra, diante de uma verdadeira omissão das Nações Unidas e dos demais países árabes.

Em um momento em que a Europa apresenta fortes resistências, o Brasil tem sido um bom exemplo de acolhimento aos refugiados da guerra síria, ajudando no resgate de refugiados náufragos, vítimas da indústria do tráfico de pessoas no Mediterrâneo e facilitando asilo: já são 2077 pessoas, fugidas da guerra civil, e já concedeu 7.801 vistos aos sírios, enquanto que os EUA, apenas 1500 e, incrivelmente, países ricos do Golfo Pérsico com larga experiência em abrigar refugiados das guerras no Oriente Médio, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, até agora não abrigaram ninguém.

A realidade dos fluxos migratórios por guerras, questões ambientais ou outros motivos é um fenômeno irreversível no mundo globalizado. E é exatamente neste momento que o Brasil faz uma revisão do chamado Estatuto do Estrangeiro, lei de 1980, ainda na ditadura militar. A nova lei de migração, aprovada no senado (PLS 288/15), de autoria do senador Aloysio Nunes, representa um avanço no sentido de estabelecer um novo paradigma para o migrante no Brasil: de ameaça à segurança nacional a sujeito de direitos.  Na Câmara (PL 2516/15), já foi constituída Comissão Especial da qual faço parte, que irá aperfeiçoar a lei. É nosso dever olharmos com atenção para essa realidade.

O sonho por um outro mundo possível ainda resiste. Sem guerras, sem fome, sem pais enterrando seus pequeninos, sem fronteiras egoístas. Que a foto do menino Aylan desperte em nós o sentimento de que, na condição de curdos, brasileiros, africanos, europeus, asiáticos, árabes, judeus ou qualquer outra nacionalidade, somos todos seres humanos, iguais em dignidade.

*Professor do curso de Direito da UFAC e atual Deputado Federal pelo PT do Acre (2015-2018)