Deputado Leo de Brito: derrubaram Dilma Rousseff para salvar os corruptos

O deputado federal Leo de Brito (PT-AC), atual presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal, faz um diagnóstico muito sombrio para o Acre e o país caso o Senado não devolva o mandato legítimo da presidenta afastada Dilma Rousseff e o governo provisório Michel Temer continue até dezembro de 2018.

Segundo o deputado, o olhar dos governos do PMDB e do PSDB sempre foi para o Centro-Sul do país, deixando o Norte e o Nordeste em segundo plano. Além de ser ilegítimo, o governo de Michel Temer, de acordo com Leo de Brito, vai provocar uma grande convulsão social no país retirando conquistas sociais consolidadas pelos governos de Dilma e Lula.

Em entrevista, Leo de Brito assinala que as gravações das conversas entre o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com as principais lideranças do PMDB e maiores apoiadores do governo Michel Temer demonstraram que “o objetivo do golpe foi o de derrubar a presidenta eleita Dilma Rousseff para salvar os corruptos do país”, através do fim da Operação Lava Jato. Leia, a seguir, a íntegra da entrevista.

Como o senhor avalia o governo de Michel Temer?

O governo interino do Michel Temer começa muito mal, pois se inicia com atrapalhos, ministros não se entendem e o governo faz anúncios e depois muda. Diz de manhã que vai ter redução do SUS e de noite se desdiz. Fala do pagamento de mensalidades nas universidades públicas e depois é outra coisa. Depois vêm os cortes no Fies. Extinguiu o Ministério da Cultura e depois voltou atrás.

Isso acaba criando desconfiança na sociedade?

É um governo que não sabe para onde ir e não tem pulso para manter suas decisões que afirma perante a sociedade. Foi o caso da reforma da Previdência, que uma hora disseram que seria só para os novos trabalhadores e agora já estão querendo incluir os trabalhadores da ativa. Começa como um governo atrapalhado, um governo autoritário, com a repressão iniciada agora em relação aos movimentos sociais e à mudança na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), cujo presidente tem mandato e foi tirado numa canetada. E tem uma queda de um ministro em apenas 11 dias, talvez um recorde no país em termos de queda de ministro em início de governo.

As gravações do ex-presidente da Transpetro mostram que o governo Temer liderou o golpe?

As gravações mostram as vísceras do governo e do golpe. As gravações do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com líderes do PMDB demonstraram, de uma maneira muito clara, que o objetivo do golpe foi o de derrubar a presidenta Dilma Rousseff para salvar os corruptos do país. O objetivo foi derrubar a presidenta Dilma para levar Michel Temer ao poder porque ele poderia garantir um verdadeiro acordão de pacto nacional, que envolveria as Forças Armadas e até o Supremo Tribunal Federal (STF). Um pacto que envolve, inclusive, o PSDB, que mostra nas gravações do Sérgio Machado um temor muito grande de que as investigações em curso no Brasil cheguem até ao partido, como devem chegar até ao Aécio e aos outros figurões do PSDB.

Não era isso que a população queria quando foi às ruas?

O governo começa muito mal e eu fico imaginando as pessoas que, de maneira espontânea e voluntária, saíram às ruas para lutar contra a corrupção e agora estão diante de um governo que surgiu exatamente para tentar abafar os casos de corrupção e que tem sete ministros envolvidos na Lava Jato. A decepção da população agora é muito grande com um governo que tem à frente um ficha-suja, pois Michel Temer não pode nem mais se candidatar.

Quais são as consequências do envolvimento do governo com o golpe?

As consequências são as piores possíveis, pois o que o país precisa neste momento é de estabilidade política. Desde que a presidenta Dilma venceu as eleições criou-se um clima de caos, de instabilidade para que ela não assumisse e, se assumisse o governo, ela não governasse. E assim foi feito, pois a presidenta Dilma foi boicotada pelo Eduardo Cunha e pela oposição desde que ganhou as eleições. E isso criou a crise política e essa crise teve desdobramentos no plano econômico, que fizeram com que aumentassem o desemprego, o país crescesse muito menos do que poderia crescer e os próprios ajustes não tivessem resultados.

O novo governo nasceu dizendo que iria combater a corrupção? E agora?

Trata-se de um governo que nasce fazendo empurrar a corrupção para debaixo do tapete, um governo ilegítimo que nasceu de uma verdadeira eleição indireta. O governo que eles anunciaram como sendo de salvação nacional é uma verdadeira figura de retórica para inglês ver, pois o Michel Temer já demonstra que não tem liderança, é refém do Eduardo Cunha, que manda e desmanda no governo, indicando, inclusive, o líder do governo na Câmara. É um governo que é refém do capital internacional, dos rentistas (os que vivem de aplicação financeira) e da Fiesp e não consegue conciliar essa agenda que jamais seria aprovada num processo eleitoral. Aliás, o PMDB de Temer nunca ganhou uma eleição presidencial no Brasil. E não consegue dar a estabilidade que o país precisa. Acho que nossos problemas só tendem a piorar com a presença desse governo, que é um governo ilegítimo e golpista.

Qual a saída para o Brasil, então?

A saída é que seja restabelecida a vontade democrática e o fortalecimento de instituições legítimas. Foi desenhado no diálogo do Romero Jucá o possível envolvimento do STF e das Forças Armadas e a retirada da presidenta Dilma sem a presença de crime de responsabilidade. Tudo isso num processo que se transformou numa eleição indireta, pois o que estava ali era o acesso ao poder. Não era o mérito da questão do crime de responsabilidade, mas o acesso ao poder, brecando os processos de corrupção contra verdadeiros figurões. É um processo de absoluta ilegitimidade. Considero que o Senado tem que devolver o mandato da presidenta Dilma. A solução que se apresenta nesse momento é a devolução do mandato da presidenta para que possamos restabelecer o resultado das urnas e para que a presidenta Dilma possa governar de agora em diante.

E o que vai acontecer se o Senado confirmar o golpe?

Se não devolver o mandato da presidenta nós vamos ter um quadro de grande convulsão social. O que se anuncia nesse momento são retrocessos nas áreas da educação e da saúde. O que se anuncia também é o processo de privatização, é entregar o pré-sal para o capital internacional, é reduzir os direitos dos aposentados, é flexibilizar os direitos dos trabalhadores. É uma agenda absolutamente avessa ao de pensar o Brasil. Na verdade, é uma agenda que vai ser desenhada exatamente pelas forças que puseram Michel Temer no poder nesse processo de impeachment. Então, nós vamos ter muita luta, vamos ter muita conflagração. Não teve nem um dia que no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Salvador, em Porto Alegre as pessoas não fossem para as ruas. O movimento cultural, o movimento dos trabalhadores sem teto por conta dos cortes que houveram no Minha Casa, Minha Vida.

Temer não vai dar, então, continuidade aos programas sociais de Dilma?

Está evidente que o governo golpista de Temer não vai continuar os programas dos governos da presidenta Dilma e do ex-presidente Lula. E isso está criando um cenário de grande instabilidade no país. E essa instabilidade vai continuar porque trata-se de um governo ilegítimo, um governo de quem conspira e de quem trai. O povo não aceita traidores. A população não gosta de traidores e isso faz com que o governo tenha instabilidade. Se fosse um governo eleito, a gente daria até 100 dias para que ele pudesse se estabelecer. Mas um governo golpista não terá trégua.

Quais os reflexos desse governo golpista para o Acre, em particular?

Eu penso que o governo Michel vai boicotar o governo do Acre, a gestão do governador Tião Viana. Não acredito que ele vai querer ajudar. Aliás, se formos olhar para os governos Lula e Dilma, estes foram os governos que mais ajudaram o Acre. É só olhar as grandes obras realizadas no Estado. Os investimentos feitos no Acre pelos governos Lula e Dilma ultrapassam em mais de 10 vezes o que foram feitos no governo Fernando Henrique. Penso que vai ter muito boicote em relação ao estado e ao trabalho que está sendo feito por Tião Viana. Ao contrário dos governos Lula e Dilma, que sempre trataram de maneira republicana os governos de todos os partidos, o PMDB só olha para o lado dele. Vamos ter muitas dificuldades. O olhar do PMDB e do PSDB quando tiveram à frente do governo federal sempre foi o olhar do Centro-Sul do país. O Norte e o Nordeste sempre ficaram relegados a um segundo plano. Não vejo, infelizmente, que teremos avanços com o governo de Michel Temer.