Léo de Brito fala sobre o cenário político nacional e do medo da oposição em enfrentar o Lula em 2018

O recesso parlamentar chegou ao fim e, a partir de hoje, deputados e senadores voltam à Brasília para dar sequência aos trabalhos legislativos. Iniciam o segundo semestre em meio a um turbilhão político que vai desde à denúncia de envolvimento do presidente da Câmara, o peemedebista Eduardo Cunha, com o esquemas da Operação Lava Jato, até à prisão do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, ocorrida na manhã desta segunda-feira.

Antes de embarcar para a capital federal, o deputado federal pelo PT, Léo de Brito, falou nesta segunda-feira sobre alguns desses fatos, a começar pelas denúncias que envolvem o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, das perspectivas para 2016 e do medo que a oposição tem de enfrentar Lula em 2018.

Veja abaixo alguns trechos da conversa com Léo de Brito:

 

Deputado, vamos conversar sobre o fato do dia, que é a prisão do ex-ministro José Dirceu. Qual a sua posição e a posição do Partido dos Trabalhadores sobre isso?

Veja só, nós não somos contra qualquer tipo de investigação. Toda e qualquer pessoa suspeita de cometer um crime deve ser investigada. A presidente Dilma tem dado carta branca e sinal verde para todas as investigações da Operação Lava Jato. Agora, nós não podemos compactuar com medias que sejam contra as leis e contra a Constituição. No meu entender, a prisão do ex-ministro José Dirceu é desnecessária neste momento, uma vez que ele já está cumprindo prisão domiciliar. Não representa nenhum tipo de obstáculo às investigações, tem domicílio próprio e não vai gerar nenhum tipo de problema para a operação. Então, eu vejo essa prisão como mais um fato político que está sendo criado. E longe das teorias conspiratórias, pois acho que a gente não pode trabalhar nisso, eu trabalho com fatos, infelizmente, fatos estão sendo gerados, dia a dia, de maneira muito coordenada, visando produzir resultados políticos. Vamos observar, por exemplo, o que tem acontecido nos últimos dias quando o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está no foco da mídia e tivemos um atentado à bomba na sede do Instituto Lula. O objetivo disso tudo é desviar o foco desses dois fatos. E vamos ter que estar preparados para novos fatos nessa primeira quinzena de agosto, tendo em vista que no dia 16 vamos ter manifestações da oposição pelo impeachment da presidente Dilma. Então, nós vamos ter que lidar com essa situação em que parece ter ação coordenada de setores da Polícia Federal, estou falando inclusive dos advogados que estão envolvidos, supostamente, nas escutas ilegais feitas na cela do Alberto Yussef, porque foram eles que se posicionaram no Facebook a favor da campanha do Aécio Neves, e, também, de setores da imprensa que, de maneira coordenada, têm trabalhado para atingir o Partido dos Trabalhadores, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula.

 

E como você vê as notícias de que autoridades do PSDB estariam sendo poupados nessas investigações pela Polícia Federal, pelo MPF e pela própria Justiça Federal através do juiz Sérgio Moro?

Isso pra gente não é novidade. Se você observar na época do governo tucano, o governo FHC, e também nos governos estaduais, o que se notou e o que se nota, infelizmente, é que todas as denúncias que são feitas contra membros do PSDB são arquivadas pela Justiça ou não são dados seguimentos, como é o caso do Mensalão Tucano de Minas Gerais que, provavelmente, está indo para um caminho de não ser julgado e de prescrever. Infelizmente, sempre foi essa a prática, inclusive, quando eles estiveram no governo: as denúncias chegavam, mas eles sequer apuravam e o procurador-geral da República da época, Geraldo Brindeiro, “engavetava” todas as denúncias. O certo é que nós temos aí inúmeros escândalos que aconteceram na época dos tucanos que não foram sequer investigados. E eu vejo isso como um importante diferencial no momento em que estamos vivendo, pois, independente da patente que as pessoas têm, elas estão sendo investigadas, pois o governo dá carta branca para a Polícia Federal investigar. Mas estamos vendo, inclusive nesse caso, que nós tivemos o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra recebeu R$ 10  milhões para barrar as investigações da CPI da Petrobras e hoje nem sequer tem algum tipo de investigação sobre esse fato. Há outros de igual relevância que também estão sendo postos de lado. Ao que parece, no Brasil, a Justiça é seletiva e acaba defendendo o PSDB.

 

O segundo semestre legislativo começa nesta terça-feira. Como é que você espera encontrar o Congresso diante desses fatos que ocorreram durante o recesso parlamentar, como a denúncia contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha?

Vai ser um ambiente de extrema turbulência. Infelizmente, pelo que vejo no presidente Eduardo Cunha, existe uma intenção clara dele se utilizar da condição de presidente da Câmara dos Deputados para atacar o PT e o governo da presidente Dilma e, tudo indica, buscar tirar a presidente Dilma do poder em ação coordenada com a oposição que, de maneira oportunista, vai se aproveitar dessa cisma entre o presidente da Casa e a presidente da República. Vai ser um ambiente em que vamos ter pautas que buscam criar desajustes nas contas públicas e, portanto, enfraquecer cada vez mais a economia; um ambiente em que o presidente Eduardo Cunha está trazendo à tona o julgamento das contas do ex-presidentes exatamente para chegar até a presidente Dilma que está com as contas hoje sendo julgadas pelo TCU e que tem apontado de maneira incoerente a possibilidade de reprovar essas contas seguindo uma linha que não seguiu em governos anteriores, trazendo um novo entendimento, ou seja, novas regras para o jogo já em andamento. Então, eu vejo um ambiente hostil, com a criação de novas CPIs, e, na CPI da Petrobras, da qual eu faço parte, eu vejo que o caminho é, já nos próximos dias, é chamar pessoas chaves, principalmente do Partido dos Trabalhadores para inflar as manifestações do dia 16 de agosto.

 

Com o PT e o governo pretendem se organizar para evitar ações e para dar um reforço à presidente que sofre com ataques constantes no Congresso Nacional?

Acredito que o PT não pode ficar na defensiva. Acredito que o momento é de ação coordenada, de ação com comando do governo, da bancada federal, junto com as articulações dos governadores, bancadas estaduais e todos os mandatários do PT, junto com os movimentos sociais e, sobretudo, numa perspectiva de defesa da democracia diante da tentativa de golpe. Hoje eu posso afirmar categoricamente que não há nenhum fundamento jurídico que dê justificativa para um impeachment da presidente Dilma. Se isso acontecer, nós vamos ter desestabilizada uma democracia que ainda é jovem, tem apenas 30 anos. Nós consideramos que isso é muito ruim para o nosso país. Impeachment nunca foi instrumento para se utilizar contra governos que são impopulares. Se fosse assim, o presidente Fernando Henrique teria sido retirado do governo no primeiro ano do seu segundo mandato. Isso não aconteceu, exatamente, porque é importante a estabilidade institucional. Muito menos vamos aceitar que esse impeachment seja feito por forças que não têm moral para criticar o governo da presidente Dilma, sobre tudo porque temos um presidente da Câmara dos Deputados Federal e do Senado e do próprio TCU que também está sob suspeita por envolvimento de seus membros na Lava Jato. Nós vamos fazer a resistência nas ruas, nas redes sociais, nas casas legislativas e em todos os ambientes e não pensem as pessoas da oposição que os movimentos populares do país vão ficar na retaguarda em relação a essa situação.

 

A gente vê que grande parte da perda de popularidade da presidente Dilma é creditada ao fraco desempenho da economia. Como você vê acha que pode ser vencida essa fase na economia para que se entre em 2016 em melhores condições e como a presidente readquirindo sua confiança diante da população?

Primeiro é preciso dizer que vivemos ainda sob os rescaldos da crise mundial de 2008. Então, quem diz o contrário sobre isso está com a impressão absolutamente equivocada. Segundo que temos que dizer que o Brasil tomou medias contra isso, as chamadas medias contra-cíclicas, como, por exemplo, a desoneração das folhas de pagamento e investimentos em infraestrutura de diversos setores para a economia interna girar. Isso foi feito para evitar que a gente evitasse ao máximo que a crise chegasse no Brasil. Agora esses instrumentos se esgotaram. Por isso é o momento em que o governo tem dificuldades do ponto de vista do seu caixa, do ponto de vista fiscal, e precisa fazer um ajuste para readequar as suas contas. E é isso que está sendo feito. E aí são necessárias medias de médio e longo prazo para que a gente possa retomar os investimentos e para que o setor privado volte a investir. Junto com isso, está sendo feito os trabalhos do Plano Safra Empresarial, da agricultura familiar, do plano de logística que, inclusive, atinge o Acre com a chamada Ferrovia Bi-Oceânica, o plano de proteção ao emprego, entre outros. É claro que vamos ter um ano de crescimento baixo, mas essa medidas estão sendo tomadas, principalmente para que a gente possa conter a inflação, pois se perdermos de vista a questão inflacionária, todos vão perder. O governo vai sair dessa crise e, provavelmente em 2016, a gente vai poder retomar o crescimento da economia. Mas é claro que isso acaba trazendo problemas no campo da política e é isso que, de maneira oportunista, a oposição está se aproveitando para sabotar o ajuste fiscal e para provocar o terceiro, quarto e quinto turno, sobre tudo porque o Aécio Neves, que foi candidato a presidente não aceita a derrota nas últimas eleições.

 

Como você acha que inicia 2016? Será que melhora no campo político e, se isso acontecer, impulsiona o nome do ex-presidente Lula para candidato em 2018?

O debate de 2016 vai ser muito focado nas questões dos municípios como educação, saúde, água e esgoto, e a gente sabe que a crise nacional vem atingir os municípios. Nós, do PT, temos que tomar muito cuidado com esse momento político e econômico. Eu estou muito confiante com relação ao Acre. Acredito que as prefeituras que prefeituras que o PT hoje administra, sobretudo as prefeituras de Feijó, a de Tarauacá e a de Rio Branco, que a gente deve chegar em boas condições nas eleições municipais, e vejo uma fragilidade de modo geral, nas prefeituras da oposição, o que, de alguma maneira, cria um ambiente propício para que o Partido dos Trabalhadores tenha uma vitória maior que teve em 2012 quando elegemos cinco prefeituras e, depois, ganhamos uma na Justiça. Acredito que nós vamos ter um resultado melhor. Agora, o que eu vejo em relação ao presidente Lula é que toda essa orquestração que está sendo feita é exatamente devido ao medo que tem a oposição do presidente Lula. Isso porque perdeu quatro vezes. Não é fácil você perder quatro eleições seguidas e depois ainda olhar para o futuro e ver alguém da estatura, credibilidade e da competência de um presidente Lula sendo o virtual candidato do Partido dos Trabalhadores. Nesse jogo, a oposição está procurando qualquer brecha para tentar incriminar o presidente Lula e tirá-lo da disputa em 2018. Eles não querem, de maneira alguma, pensar que o Partido dos Trabalhadores possa vencer uma quinta eleição. Para eles, isso seria trágico.

 

Essa tentativa de tirar o Lula da disputa em 2018 passa também pela violência, como se viu há poucos dias a detonação de uma bomba no Instituto Lula?

Estão tentando minimizar o acontecido, mas nós sabemos que esse ato é quase um ato de terrorismo. Nós sabemos que as ações de terrorismo são baseadas em ações políticas, numa ideologia política. Nós sabemos que os responsáveis por esse ato foram forças conservadoras e fascistas que fizeram o que fizeram. Nós estamos vendo agressões gratuitas sendo feitas contra petistas, estamos vendo apologia à volta do regime militar nas redes sociais, e agora vemos essa ato da bomba que é um ato que atenta contra a democracia. Não tenho dúvida que se qualquer ex-presidente da República sofresse um atentado como o que foi feito junto ao Instituto Lula, isso seria repudiado por todas as forças da sociedade, inclusive, por nós do Partido dos Trabalhadores. Dito mais: eu espero que todas as forças políticas de oposição repudiem esse fato, o que não aconteceu até agora. O que tem sido feito é tentar tripudiar, minimizar. Quem defende a democracia, seja de qual partido for, tem que repudiar esse atentado.